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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Jipalo - A doença da traição

Saímos de casa em direcção à cidade e vínhamos a ouvir rádio, dava o programa "Mito ou Verdade" na LAC (Luanda Antena Comercial).
Em pleno século 21 a questão que se impunha neste programa era:
-A doença Jipalo (ou será Gipalo ou Gipahlo, não sei) que ataca as crianças bebés, é Mito ou Verdade.

Pára tudo, pensei eu:
-O que é isso do Jipalo?

Responde o locutor:
-Jipalo é a doença que os "mais velhos" dizem que os bebés apanham devido ao pai ou mãe namorarem fora do casamento. As crianças ficam com febres altas e muita diarreia. Vamos em directo para a rua com a nossa repórter.

Reporter:
-Hoje estamos no bairro da Maianga para procurar saber se as pessoas consideram que o Jipalo é "mito ou verdade".

Durante uns 10 minutos houve pessoal que dizia que era verdade "porque já tinha acontecido com um amigo", outros que diziam que era mentira e outros que diziam que era verdade "porque os mais velhos diziam que era verdade", e outros que diziam "Ah Sei! Aquela doença que faz com que os bebés tenham diarreias a cheirar a ovo podre".

Mais 10 minutos de entrevistas na rua com pessoas que diziam que a culpa era das mulheres por irem namorar fora "e a diarreia e a febre era mais forte", outros diziam que era culpa do homem e que bastava "ele tomar banho antes de pegar no bebé"

Entretanto o Locutor começa a receber chamadas, até que recebe a chamada de um rapaz que diz que é verdade e o porquê:

-É verdade sim! A minha mãe trata esses casos todos os dias!!

Locutor: -E será possível falar com a sua mãe?

Rapaz: -Eh! Acho que sim ela está na cozinha!

Locutor: -Então passe-lhe a chamada!

O rapaz abafa o telefone e ouve-se, "maããããããããããe tão aqui na rádio a falar sobe jipalo e quê, o senhor quer falar contigo!"

Locutor:-Boa noite a senhora trata casos de jipalo?

Senhora: -É sim!

Locutor: -E como é que trata?

Senhora: Quando essas miúdas ou homens estão casados mas andam aí a namorar, o bebé fica muito doente. Então tem de se fazer um tratamento de erva de jipalo. É só ir no mercado e pedir nas zungueiras. Depois faz-se um chá mas a mãe não pode tocar no bebé durante uma semana.

Entretanto cheguei ao meu destino e incrédulo desliguei o rádio e fui à minha vida

quinta-feira, 7 de março de 2013

O trânsito! Sempre o Trânsito!



Estar em Luanda é estar numa das cidades com o pior trânsito do mundo. O trânsito é tão mau, tão mau que  é se calhar o factor mais influente na adaptação a esta cidade.

-É o trânsito que nos obriga a levantar pouco depois do sol nascer (senão antes).
 Como podem ver pela foto são 6:36 da manhã e o volume de tráfego é enorme. Nesta estrada a caminho do aeroporto vinda do Rocha Pinto existem 3 faixas, por vezes 4, mas neste excerto há apenas 3 faixas assinaladas. E o que temos aqui?
5 filas de trânsito!!!
Mas o dia começou há 40 minutos???

-É o trânsito que influencia a renda dos imóveis. Quanto mais longe da cidade, mais barato e por vezes a diferença resume-se a 3 km. Passo a explicar:
No início de Talatona, ou na zona circundante ao Belas Shopping, um apartamento T3 num condomínio fechado pode ser arrendado a partir dos 4500/5000 USD.
Cerca de 3 km mais à frente em direcção ao Bairro Nova Vida, em frente ao Mundo verde, arrendas um apartamento semelhante num condomínio fechado por 3000USD. Se formos 1 km em direcção a Benfica, lado oposto ao Nova Vida, então aí o mesmo apartamento num condomínio fechado fica pelos 1500/2000 USD.
A diferença são 2 a 3 horas perdidas de sono por dia, para quem fica em Benfica e trabalhe em Luanda. Para quem more mais para os lados do Mundo Verde, é cerca de uma hora perdida em comparação  com quem vive em Talatona.
No fim-de-semana a situação tende a piorar para quem vive para os lados de Benfica e quer ir a Luanda. Quem viva para os lados do Mundo Verde a diferença diminui para quem vive em Talatona.

-É o trânsito que obriga famílias inteiras a logísticas esgotantes para deixar cada membro da família no sítio devido.

-Principalmente, é o trânsito que testa o estofo de cada recém-chegado para se adaptar a uma rotina onde falta luz, falta água, falta limpeza nas ruas mas congestionamentos não faltam a qualquer dia, a qualquer hora.


sexta-feira, 1 de março de 2013

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Liamba strike

Fui comprar tabaco para a minha namorada levar, aqui o volume custa 1500/1800 Kwanzas (cerca de 12/15 €), sem sair do carro chamei um moço e pedi a marca Lucky Strike:

Eu:
-Tem Lucky strike aí?
Zungueiro 1:
-Quê!! Não Entendo?
Eu:
-Lucky Strike (como se repetir um nome que ele não conhece lhe fosse explicar o que era).
Zungueiro 1:
-Só tem Marlboro Vermelho e Amarelo!!
Eu:
-Quero dois volumes.

Ele dá-me um volume e vai buscar o segundo sem receber dinheiro. É assim! Mesmo um vendedor clandestino na rua, confia nos seus clientes desconhecidos.
Nisto chega-se um outro Zungueiro e diz:
-Lucky Strike é tabaco?
Eu:
-Ya é tabaco!
Zungueiro 2:
-Porque se quiseres outra coisa mais natural eu arranjo!!

O Jika garantiu-me material de boa qualidade sempre que eu quiser.
Fiquei muito descansado porque nunca se sabe quando posso ter Glaucoma ou outra doença que necessite de marijuana medicinal...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Agarra que é estrangeiro!!!

Viajando de motinha de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sou um alvo fácil da polícia.
Já fui mandado parar mais vezes em 3 semanas aqui em Luanda do que no ano passado todo em Portugal, há varias razões para que isso aconteça. Passo a enumerá-las:

1-A maior parte das pessoas que anda de moto aqui não tem carta.
2-Muitas motos não têm documentos nem matrícula.
3-A maioria dos assaltos são perpetrados por indigentes em "motos rápidas*" (até parece um título do Angolense).
4-O meu tom claro de pele indicia que sou estrangeiro, a melhor forma de confirmar é pedir-me os documentos.

Desta forma sou incomodado várias vezes mas como tenho os documentos todos, não tenho problemas. No entanto hoje tive um pequeno acontecimento.
Pela primeira vez na minha vida não parei após ordem do Polícia. É que estava atrasado, tinha acabado de sair de casa há 5 minutos e ainda por cima deixei os documentos da moto em casa.
Diálogo no meu cérebro:
-Estúpido pá!!! Sem documentos ou pagas ou  a moto é apreendida.
-É pá vou disfarçar que não o vi!!!
-Bom isto não vai funcionar ele esta a bufar no apito com força e está quase no meio da estrada.
-Caga nisso eu estou de óculos escuros, é praticamente como se estivesse invisível.

Acelerei a minha "moto rápida" e bazei mas ainda deu para ouvir o polícia a rir-se:
-Xé pára só!! Olha esse gajo. He!He!He!

Safei-me de boa pelo menos por enquanto, é que tenho um capacete dourado e tenho matrícula na moto. Há partida eles não ligam a isso, ou "penteiam-me*" no sítio ou então não se dão ao trabalho. É o que me dizem.
Mas vocês acreditam que o facto de andar de óculos escuros diminuiu bastante as vezes que sou mandado parar? A sério! Comecei a utilizá-los ontem e durante o dia de ontem não fui mandado parar, um verdadeiro recorde desde que comecei a andar de moto.

*Jargão:
"Moto rápida" não é uma moto que dá 300km/h, nem sequer é uma moto que vai dos 0 aos 100 em 2 segundos. Uma "moto rápida" é uma "acelera".
"Pentear" é quando um polícia não te passa multa mas chega a um acordo contigo (tom bastante irónico).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

DE VOLTA!!

Olá! Estou de volta a Luanda!

Já cheguei há umas semanas mas só agora tive tempo para escrever qualquer coisa. Aviso já que a Patalógika não me vai acompanhar nesta nova etapa em Angola.

A minha análise actual é:
-Está tudo na mesma por cá mas está tudo diferente.
Got the message?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"Sabes que isto também farta!!"

Hoje vou-me deitar com saudades de Luanda, saudades do casal Bicheiro e da sua casa, saudades da amiga xana e das suas baratas, saudades do bafo quente e ar húmido do Cacimbo.
Deito-me com saudades porque no outro dia telefonei para o Lugar L e do outro lado recebi um olá triste, cansado e saudosista.
Perguntei:
-Então que se passa?
-Olha estou cansado disto. Sabes que isto também farta!!

É verdade, Luanda cansa até ao ponto de querermos chorar.
Chegava a casa, tirava uma Cuca do frigorífico, ligava o AC, ligava a televisão e sentava-me no sofá completamente estafado, farto do trânsito, farto da confusão, farto das complicações no trabalho.

Por estranho que pareça tenho saudades disso, saudades de quando ligava aos amigos só para desabafar, para ir a casa deles e dizer mal de tudo e todos, sentir que era compreendido por eles (pois todos, volta e meia, se sentiam como eu) ria-mo-nos e de manhã lá voltávamos à luta.

Abraço malta, força aí que isto aqui é mais fácil mas deixa-nos dormentes e sem identidade. Acreditem...